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sexta-feira, 26 de março de 2010

Tudo que desejo para minha filha...

Novembro/2009
Bianca está nos Estados Unidos morando com uma família americana e fica impressionada com a certeza que seu 'irmão' tem sobre a religião dele. Parece que ele fala da bíblia com muita convicção e Bianca manda um e-mail para sua mãe perguntando sobre qual a opnião do Espiristimo (crença de sua mãe, sua avô e de boa parte de sua família) sobre a Bíblia.

Giovana responde. E Bianca responde de volta.

Esta resposta de Bianca é o sonho de toda mãe, ou pelo menos deveria ser...
Na verdade é o mais profundo desejo de todos que acreditam que nada pode ser mais importante do que plantar a semente da consciência, da certeza, paz ou simplesmente Fé.
De minha parte digo: nada poderá ser mais gratificante para mim do que ver minha filha chegar neste nível de Compreensão...

De: Giovana Para: Bianca

...Vc. não levou o livro O Evangelho segundo o Espiritismo? Se tiver levado, vai ver que ele é todo em cima da Bíblia. O livro pega trechos dos evangelhos, que compõem a bíblia, e explica estes trechos a partir da visão espírita.

Sobre o espiristimo, o que posso dizer é que uma crença antiga. Os grandes filósofos como Platão já acreditavam na imortalidade da alma e na reencarnação. O espiristimo acredita em Deus como criador de tudo e em Jesus como um ser evoluído que esteve na Terra para nos mostrar o nosso objetivo aqui – aprender e evoluir para seres capazes de amar sem restrições.

Neste sentido, a Terra é uma escola. Cada vida de um espírito é como um ano letivo. Podemos passar ou repetir. Voltar atrás nunca! É como uma escada com vários degraus. E o que faz a gente saber se estamos subindo ou se estamos parados? Para mim tem a ver com paz de espírito e consciência tranqüila. Não tem a ver com felicidade. Podemos estar tristes, mas se for uma tristeza justa, não perturba nossa paz.

O grande problema é conquistar e manter a consciência tranqüila diante dos inúmeros dilemas que a vida nos oferece:
Voto numa pessoa porque é bom para mim ou porque é bom para todos?
Proíbo minha filha de fazer algo ou deixo ela livre para correr o risco de quebrar a cara?
Xingo o motorista que me ultrapassa ou procuro me colocar no lugar dele e pensar que deve estar atrasado para algo importante? Brigo com o vizinho, pois estou com a razão ou engulo um sapo em nome da paz?

As escolhas que fazemos devem (ou deveriam) estar de acordo com o que acreditamos. Vc ta entendendo o que estou dizendo? A religião só importa se servir para guiar nossa vida. É ela que vai dizer se vamos nos desesperar por um longo período porque perdemos alguém que amamos ou se vamos chorar, guardar aquele amor e seguir em frente porque a vida não para... porque existem milhares de pessoas para serem amadas e nós restringimos nosso amor apenas aos mais próximos.

A vida nos coloca estes momentos, estes grandes sofrimentos, estes grandes dilemas justamente para ver a decisão que tomamos. Estamos prontos para perdoar? Para seguir em frente? Só vamos saber disto diante destes momentos... É porque somos fracos, muito fracos e então, se não somos empurrados, não nos mexemos e nunca chegaremos ao fim da nossa escada.

Isto não quer dizer que devemos aceitar o mal, as injustiças, a dor, como coisas irremediáveis. Quer dizer que estas coisas acontecem porque somente poucos de nós são capazes de, por decisão própria, aceitar todos os obstáculos dos caminhos certos e pular de degrau.

Esta crença é o que eu considero de mais importante para deixar para vc e para Leo. Não quer dizer que você tenha que concordar com tudo (mas tem que saber porque discorda), nem que tem que acreditar na mesma coisa. Mas pode te ajudar a construir sua própria crença.

Vc diz que reza, mas não sabe para quem. Talvez o que vc não saiba é o PORQUE.

Porque vc reza? O que vc busca? O que vc pede? As respostas estão em vc, filha. Se sente perdida, e espera uma receita pronta enviada por um ser Poderoso, não vai conseguir. Vai se decepcionar. O auto-conhecimento é um caminho difícil e demorado e é ele que nos dá grande parte de nossas respostas. O melhor conselho que posso dar se está angustiada e perdida, com dúvida, é VIVA. Viva prestando atenção a todos os momentos, a todos os detalhes. Aproveite o que vem de bom e o que vem de ruim, porque a Vida dá e diz tudo para gente, mostra os sinais, indica os caminhos. E, se a gente estiver aberta a ouvir, erramos menos.

Apesar dos amigos, da família, dos apoios que encontramos, a verdade terrível é que estamos absolutamente sós nesta busca. Mas isto pode ser tb maravilhoso porque significa que, para termos sucesso (como espíritos eternos e não como pessoas deste nosso mundinho primitivo, cheio de egoísmo, intolerância e desamor - reflexo de nós, infelizmente) só dependemos de NÓS MESMOS! Vc. é o Poderoso!

De: Bianca Para: sua mãe

Mãe,
Eu não me sinto perdida. Eu não me sinto sozinha, não me sinto angustiada, não estou em desespero. Tudo o que você disse, todas as palavras, eu já levo tudo isso comigo. Eu levo isso comigo pq aprendi isso com você, com minha familia e mãe, eu aprendi isso com a minha vida. Eu realmente fiquei impressionada com a certeza que meu 'irmão' tem sobre a religião dele. Isso me ensinou a respeitar mais as crenças das outras pessoas e a entender que todos nós temos respostas diferentes e que a verdade é relativa.

Eu sempre tive a mania de me colocar pra baixo, de me sentir mau, de 'fazer drama' como você sempre gostou de dizer. Mas hoje eu vejo isso como outra vida, outra realidade. Eu estou em paz. Eu me sinto bem com o mundo, com a vida, com as pessoas. Eu amo todas as coisas, todas as pessoas. Eu to vivendo, mãe. Eu to vivendo, e eu to aprendendo.

Quando Joâo morreu eu senti raiva. Eu senti raiva de mim, eu senti raiva de Deus. Eu senti muita raiva de Deus. Eu tentei sofrer calada, eu via a fé, a força,que você tinha, que tia Mari tinha, a força, tão incompreensível para mim, que fazia vocês irem em frente, que fez vocês aceitarem. E eu era tão pequena, e eu sentia tanto ódio que eu realmente acreditei que eu sabia mais que vocês. Que eu sabia de uma coisa horrível, de uma verdade crua, e que vocês todos viviam numa ilusão. Eu acreditei que eu nunca ia conseguir acreditar em nada de novo, pq eu tinha visto a realidade, enquanto vocês preferiam se esconder na ilusão de um Deus. Até que em um dia tudo parou. Foi como se a raiva se transformasse em saudade, e aos poucos eu pude ver o mundo de um jeito diferente. No aniversário de um ano da morte de João eu fui até o cemitério pra me despedir. Eu sei que eu não precisava estar lá pra me despedir, mas mesmo assim, era como se eu precisasse passar por aquilo de novo. Eu me libertei naquele dia.

Hoje eu vejo como minha fé era fraca, como eu era pequena. Hoje eu tenho fé, mãe. Eu tenho fé em mim. Eu tenho fé nas pessoas, eu tenho fé em voce. E eu tenho muita fé em Deus. Eu tenho dúvidas as vezes, mas não da existência Dele, e sim dos 'fundamentos' da religião espírita.

Eu sei por que eu rezo. Eu rezo agradecendo por estar aqui, pela vida que Ele me deu, rezo pela família maravilhosa que eu tenho, agradeço por ter nascido no Brasil, por ter nascido na minha família, rezo pela força que ele me dá todos os dias, rezo agradecendo por todos os dons, todas as oportunidades, agradecendo por todos os momentos, eu agradeço pelas lágrimas, pelas dúvidas, eu agradeço por cada Segundo. Eu rezo por você, por meu pai, por Leo, pela nossa família, rezo pelo meu povo, pelo meu país, eu rezo pelas pessoas que sofrem tanto, eu rezo pra que Ele ilumine essa gente que tem tanto poder pra fazer o bem mas que se deixa corromper, eu rezo pra que Ele ilumine o meu caminho. Pra que me dê coragem, pra que me dê forca. Eu rezo pra que Ele me guie, eu rezo pra ser capaz de realizar a missão que Ele me deu. Eu peço perdão pelas oportunidades que desperdicei, peço perdão por ter estado cega por tanto tempo, peço perdão pela minha incompreensão, pela minha presuncão. Peço que Ele me faça mais humilde.

E eu vivo a minha vida tão bem agora, eu aprendi que só preciso de mim pra ser feliz.

Eu aprendi que eu sou muito boa em ser feliz!

Eu tenho tanta certeza agora, mãe. Tanta certeza de quem eu sou. Não pq eu possa me definir, mas pq eu vivo de acordo com o que eu acredito. Eu não me arrependo de nada. Eu sei perdoar, eu sei me perdoar. Eu aprendi que eu não tenho controle sobre o que os outros pensam de mim, eu aprendi que nada mais importa com tanto que eu esteja fazendo o que acho que é certo. Eu aceitei que eu só posso ir até um certo ponto, e que o resto não depende mais de mim. Eu vejo a vida como um todo, eu vejo cada detalhe, e eu amo cada detalhe.

Eu sei que voce já me disse tudo isso antes, e que eu já levava tudo isso em mim desde sempre. Eu aprendi que eu tenho todas as respostas. Mas eu tb aprendi que não adianta decorar as lições que você me passou, as lições que eu imagino, as teorias que eu crio. A verdade é que eu tenho que viver e redescobrir tudo isso de novo e de novo a cada dia.

Eu aprendi que eu sou forte e que eu posso ser quem eu quiser ser.

E eu rezo também pra que eu continue evoluindo. Pra que um dia eu esteja no mesmo nível que você está, que minha vô, que Tia Mari está. Pra que um dia eu também possa passar pra alguém o que você passou pra mim.

Mãe, alivia seu coração, pq eu to bem, eu to feliz, eu to vivendo, e eu te amo. Fica em paz pq vc me passou tudo, pq vc me criou tão bem que hoje, aos 16 anos, eu me sinto completa! Eu me sinto completa mesmo sabendo que ainda tenho muito a aprender, muito a viver, muito a sentir. Fica tranquila pq eu te amo, e eu vou te amar sempre. E eu vou voltar pra você em breve.

domingo, 13 de dezembro de 2009

De: Mariana Para: Minha família

Temos uma tradição de família que já dura pouco mais de 20 anos. Todo segundo sábado do mês de dezembro nos reunimos em um grande almoço onde estão presentes os filhos, netos, bisnetos, trinetos e mais recentemente até os tataranetos dos pais de minha mãe. Amo estes encontros. São momentos de alegria, renovação e, inevitavelmente, tristezas também... No ano de 2006, em 14 de novembro, João, meu primeiro filho, morreu com 3 anos e meio de idade depois de 10h de cirurgia e uma noite inteira de idas e vindas até o desenlace final...
Foi para este encontro, em 2006, que escrevi o texto a seguir.
Tenho que fazer uma ressalva: neste texto roubei palavras de uma grande AMIGA, Alba Querino. Pouco tempo depois da morte de meu pequeno grande João, ela me presenteou um texto lindo, poético, consolador, uma benção... - prometo postá-lo na intégra em outra oportunidade. Eram palavras tão perfeitas para o meu momento que foi inevitável usá-las....

De: Mariana Para: Minha família

Quero agradecer a Deus por ter nascido nesta família. Nesta família que me ensinou o verdadeiro sentido da vida.
Graças aos ensinamentos desta família eu pude ter a benção de receber sob os meus cuidados o pequeno grande João. Um espírito iluminado que fez parte da minha vida por muito pouco tempo, mas que ficará comigo para sempre...
Se eu não soubesse das verdades que aqui aprendi, eu não poderia ter sido instrumento da vontade do Pai Maior em ajudar João no resgate que ele aqui realizou.
Nestes três anos que João esteve aqui vivi na prática muitos destes ensinamentos. Exercitei o amor sem apego todos os dias e acredito que este é o "grande aprendizado" de nossa vidas. Pois o apego é, para mim, a causa de todo sofrimento humano. Alguém pode dizer, então, que para não sofrer basta apenas não se envolver, não cativar, não cuidar, não amar... Mas sem amor não há felicidade...
Exercitar o amor sem apego foi tudo que fiz nestes três anos... E espero que eu saiba aproveitar esta oportunidade que me foi dada e continue este exercício.
Quero dizer a estas pessoas - que amo muito e que sei que me amam também - que não se preocupem comigo eu tenho o consolo do dever cumprido, de ter dito sim ao amor. E se as vezes estou triste, muito triste... É só saudade...

Como escreveu uma grande amiga:
“...A vida e a morte são amigas, companheiras, ainda que a gente não entenda. Ainda que doa em nosso coração simples. Mas dentro da nossa dor encontramos a Força. Ás vezes, até a nossa paz, paz do dever cumprido, do amor carinhosamente dado, de poder dizer sim à Vida, numa tarefa, missão, algumas vezes árdua. Mas o Mistério nos permite isso: dizer Sim, sem muitas vezes sequer compreender o sentido. Ser instrumentos de uma sinfonia maior. Nós somos muitas vezes a ponte, apenas a ponte para uma expressão da Vida que o espírito anseia completar. E o pequeno ensina ao grande..."

Alguns agradecimentos especiais:
A minha mãe: que tem o poder de consolar o meu coração
A meu pai: o equilíbrio e a segurança de que nunca estou só
A minhas irmãs: amigas eternas, cúmplices. Para elas praticamente não existem segredos
A meus sobrinhos: que são para mim alegria e esperança
E um agradecimento, me perdoem os demais, ainda mais especial
a Marcus: fonte de força, coragem, vontade de viver. Companheiro desta e de tantas outras batalhas já travadas e que ainda iremos travar...
E o maior de todos agradecimentos a Deus que me permitiu ter todos estes espíritos ao meu redor...

O Natal ou De: Bianca Para: sua família


Para esta época do ano escolhi dois textos. O primeiro é meu mesmo, escrito no Natal de 2006. O segundo foi escrito por minha sobrinha, Bianca, a filha mais velha de minha irmã Giovana, no Natal de 2008. Peço permissão, porém, para inverter a ordem cronológica e postar, primeiro, o texto de Bia. Porque? Porque primeiro prefiro que vocês entendam o que é o Natal na minha família, ou melhor, que tipo de família é a minha... e o texto de Bia é perfeito para isso. Creio que assim entenderão melhor o meu texto, escrito no Natal mais difícil, estranho e vazio da minha vida. Mas esta é uma outra história... que contarei mais tarde...
Bem, então a vamos ao "primeiro" texto. O de Bia, a menina dos meu olhos. Bianca é muita mais que minha sobrinha... Ela é - como diria Clarissa Pinkola Estés - a minha Khaleh "palavra iraniana com significado de uma intimidade familiar especial e carinhosa ou afinidade psíquica com outra alma. Almas afins que se comunicam muito além das palavras...". Bia escreveu este texto no primeiro Natal que passou longe de nós. Ela tinha, na época, apenas 16 anos e, pelo texto que poderão ler a seguir - e por outros tantos que ainda postarei neste blog - perceberão que ela é realmente especial...

De: Bia
Para: Sua família


"Para mim o Natal nunca significou muita coisa. No fundo, nunca relacionei essa data ao nascimento de Cristo, nem nunca parei pra pensar no sentido que esse dia tem para as pessoas.
Me acostumei com os presentes, os jantares… Em ter todo mundo reunido, em estar com a minha família. E, ter tudo isso, todo ano, me deixou tão mal acostumada que eu nunca parei pra pensar em como seria se, por algum motivo, eu não tivesse isso.
Eu me lembro de todas as mensagens, todas as orações natalinas, todos os discursos em que vocês –vó, vô, tias, tios – tentaram mostrar a importância dessa ocasião, o verdadeiro sentido do Natal e a sorte que a nossa família tem, que eu tenho, em poder se reunir nessa data.
Eu sempre dei muito valor a essas lições, sempre escutei com muito cuidado e realmente achei que entendia tudo isso. Eu achei que tinha aprendido, que compreendia o sentido do Natal, a importância de uma família unida.
Mas a verdade é que só agora, não estando aí com vocês, é que eu realmente entendo. Não é só o sentar ao lado de um conhecido e brindar “a um nascimento que aconteceu dois mil anos atrás". Não é só uma noite de festa e comilança. É a afirmacão constante dos laços que unem a nossa família. É a celebracão do amor que nos mantém unidos, que nos da força, que nos ilumina. O Natal é o nascimento de Cristo em cada um de nós e comemorar isso com quem a gente ama é o maior presente que podemos dar uns aos outros.
Ah, Familia Querida, o que eu tenho pra dizer é tão simples, e ainda assim, me faltam palavras… Me faltam frases, pontos, virgulas, pra descrever a eterna gratidão e o amor incondicional que eu tenho por cada um de vocês. Pra dizer o quanto cada membro dessa familia significa pra mim, pra traduzir o quanto penso em vocês, em TODOS vocês. O que posso fazer é me conformar com a minha falta de talento literário, me conformar em não ser Vinicius ou Chico ou Cecilia e dizer, sem mais floreios, o que quero que vocês saibam:
Eu estou longe de casa há quase cinco meses. Vivo com uma nova familia, e, quando é preciso, me mudo para casa de outra familia por alguns dias. Viajo constantemente com pessoas que conheci por poucas horas, encontro alguém diferente a cada passo que dou. E não teve um minuto, um momento sequer, que tive medo ou que me senti desconfortável.
Não é porque eu não sinta saudades ou seja corajosa. Eu me sinto em casa aqui, como tenho certeza que me sentiria em qualquer outro lugar. Eu me sinto em casa por que eu tenho cada um de vocês comigo a cada passo que eu dou. Eu sinto os laços tão fortes dessa família que eu amo, eu me sinto protegida, amada. Eu me pego agradecendo a Deus por cada dia, por cada membro que compõe essa corrente, essa muralha que me dá força.
Enfim, o que estou tentando falar é: Obrigada. Obrigada por estarem comigo sempre, obrigada pelo simples fato de existirem. Obrigada por todas as broncas, todos os sorrisos, todas as lições, todos os encontros. Obrigada por serem a minha família. E, é, claro:
Feliz Natal!"